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Diagnóstico tardio de autismo na América Latina

Quase dois anos de atraso entre a preocupação dos pais e a confirmação

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Daniel Spritzer26 de março
Diagnóstico tardio de autismo na América Latina

Provavelmente você já atendeu famílias que chegaram ao consultório com uma sensação comum: "eu sabia que algo estava diferente muito antes de alguém me levar a sério." É uma queixa recorrente, e ela tem respaldo nos dados.

Um estudo publicado na revista científica Autism, coordenado por Montiel-Nava e colaboradores, analisou as respostas de 2.520 cuidadores de crianças autistas em seis países da América Latina: Argentina, Brasil, Chile, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. O objetivo era entender quando os pais começam a notar diferenças no desenvolvimento do filho, quando o diagnóstico de TEA é finalmente confirmado e o que explica o intervalo entre esses dois momentos.

O intervalo que os dados revelam

Em média, os cuidadores relataram as primeiras preocupações com o desenvolvimento do filho aos 22 meses. O diagnóstico veio aos 46 meses, ou seja, quase dois anos depois. Na prática, isso significa que as crianças dessa amostra foram diagnosticadas em torno do momento em que entrariam na escola formal, uma fase que já é tardia para o acesso a muitos programas de intervenção precoce.

O que atrasa e o que adianta o diagnóstico

Os pesquisadores identificaram os fatores que mais influenciaram a idade do diagnóstico. Crianças com sintomatologia mais severa e com outras doenças físicas, neurológicas ou genéticas foram diagnosticadas mais cedo. O raciocínio é direto: quanto mais visível a diferença, mais rapidamente ela chega à atenção de um especialista.

O que atrasou o diagnóstico foi mais revelador. Crianças com habilidades verbais mais desenvolvidas receberam diagnóstico mais tarde. Crianças com cobertura de saúde pública também foram diagnosticadas mais tarde do que as com plano privado, uma diferença de mais de três meses na média, que reflete as barreiras reais de acesso em sistemas sobrecarregados.

O dado sobre linguagem merece atenção específica. Crianças que falam, que respondem, que têm um vocabulário aparentemente adequado tendem a passar despercebidas por mais tempo. Os sinais de autismo nesse perfil são mais sutis: dificuldade em conversas que vão além do próprio interesse, menor percepção das intenções alheias, rigidez que só aparece em situações específicas. Esses são exatamente os casos em que a preocupação dos pais costuma ser descartada por outros profissionais com frases como "mas ele fala tão bem."

O que os pais notam primeiro

Um achado que vale destacar é que as primeiras preocupações relatadas pelos cuidadores se alinham de forma bastante consistente com os critérios diagnósticos do DSM-5. Atraso de fala, não responder ao próprio nome, dificuldade de interação, perda de habilidades já adquiridas, movimentos repetitivos: os pais estão observando exatamente o que a literatura descreve como sinais precoces.

Isso tem uma implicação prática relevante. Quando um cuidador chega até você com uma preocupação, mesmo que vaga, mesmo que a criança ainda não tenha perfil "clássico", essa preocupação já está chegando depois de meses de observação. Levá-la a sério não significa fazer um diagnóstico precipitado. Significa não desperdiçar o tempo que o atraso do sistema já tomou.

O que fazer com o tempo que já foi perdido

Para crianças que chegam ao diagnóstico tardio, uma das perguntas práticas mais relevantes é: como recuperar o tempo que passou? A intervenção precoce é mais eficaz, mas isso não significa que intervenção tardia é inútil, muito pelo contrário. Significa que é preciso ser mais estratégico sobre quais habilidades priorizar e como intensificar o trabalho dentro e fora da sessão.

É nesse ponto que ferramentas que ampliam o tempo de prática terapêutica fazem sentido. Os jogos da AutiGames, desenvolvidos com curadoria clínica de profissionais de saúde mental, foram pensados para uso em sessão e entre sessões, exatamente para que o desenvolvimento não fique restrito ao tempo de atendimento.

Uma pergunta para encerrar

Como você lida, no cotidiano da clínica, com famílias que chegam com histórico de preocupações ignoradas por outros profissionais? É uma situação que afeta a forma como elas chegam até você, e vale a conversa.

Referência: Montiel-Nava, C. et al. Age of autism diagnosis in Latin American and Caribbean countries. Autism, v. 28, n. 1, p. 58-72, 2024. DOI: 10.1177/13623613221147345

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