
A festa de aniversário do coleguinha. O recreio na escola. A pracinha no fim de semana. Você observa seu filho e percebe que ele fica de lado, não se aproxima das outras crianças, parece não ter vontade de participar. É natural pensar: “ele simplesmente não se interessa por outras pessoas.”
Mas a ciência está mostrando que, em muitos casos, a história é mais complicada do que parece. O que você vê como falta de interesse pode ter, por trás, ansiedade, medo de dar errado, ou uma sensação de que o esforço social não vale a pena. E a diferença entre esses dois cenários importa muito, porque muda o que você pode fazer para ajudar.
O que a pesquisa encontrou
Uma revisão científica publicada em 2026 na revista Autism Research reuniu os resultados de 14 estudos, envolvendo mais de 4.500 participantes, para entender a relação entre motivação social e problemas emocionais em pessoas autistas. Motivação social é, de forma simples, a vontade de buscar contato com outras pessoas e a capacidade de sentir prazer nessas interações.
O resultado foi consistente: quanto menor a motivação social, maiores os níveis de ansiedade, depressão e ansiedade social. O tamanho dessa associação foi moderado, o que na linguagem da pesquisa significa que é uma relação relevante. Esse padrão se manteve estável independentemente da idade, do sexo e da qualidade dos estudos analisados.
O que vem primeiro: a ansiedade ou o afastamento?
Uma das questões mais importantes que a pesquisa levanta é a direção dessa relação. Será que a criança se afasta do convívio social e por isso fica ansiosa? Ou será que a ansiedade faz com que ela evite as situações sociais?
A resposta, pelo que os dados sugerem, é que as duas coisas provavelmente acontecem ao mesmo tempo. A criança tem dificuldade nas interações, experimenta rejeição ou solidão, e passa a buscar menos o contato social. Ao mesmo tempo, essa retração alimenta sentimentos de ansiedade e tristeza, que por sua vez reduzem ainda mais a vontade de tentar. É um ciclo que se reforça.
E existe um cenário que talvez surpreenda: alguns estudos mostraram que crianças autistas com alta motivação social, aquelas que realmente querem estar com os outros, também podem sofrer mais, justamente porque percebem a distância entre o que desejam e o que conseguem. A frustração de querer e não conseguir pode afetar a autoestima e aumentar o risco de sintomas depressivos.
O que isso significa para a sua família
Em termos práticos, esse conjunto de evidências traz duas mensagens importantes.
A primeira: quando seu filho evita situações sociais, vale a pena investigar se existe ansiedade por trás desse comportamento. Não é raro que crianças autistas sintam medo de errar, de serem rejeitadas ou de não saberem o que fazer em um contexto social. Esse medo pode parecer desinteresse, mas é outra coisa. E quando a ansiedade é identificada e tratada, muitas vezes a criança começa a se abrir mais para o convívio.
A segunda: forçar a criança a “socializar” sem antes ajudá-la a lidar com o que ela sente pode piorar as coisas. Se a experiência social é repetidamente negativa, a motivação para tentar de novo diminui. O caminho mais eficaz costuma ser o inverso: primeiro oferecer oportunidades sociais onde a criança tenha chance real de ter uma experiência positiva, e ir aumentando a complexidade aos poucos.
Praticar o social em um ambiente seguro
Uma forma de quebrar esse ciclo é oferecer à criança experiências sociais que sejam positivas desde o início, sem o risco de rejeição, sem a pressão de acertar de primeira. Foi com essa lógica que o Mapa das Emoções foi desenvolvido. No jogo, a criança interage com personagens por meio de diálogos progressivos: começa com trocas simples e, conforme avança, vai se aproximando dos personagens, construindo vínculos e praticando habilidades como reconhecimento de emoções, empatia e comunicação social.
O ambiente é acolhedor por design: os personagens respondem com paciência, e a criança experimenta o prazer de se conectar com o outro sem as barreiras que o mundo real impõe. A ideia, respaldada pelo que essa pesquisa mostra, é que experiências sociais positivas, mesmo virtuais, podem ajudar a reconstruir a motivação para buscar o convívio real.
O Mapa das Emoções foi desenvolvido por profissionais da saúde mental, e pode ser usado como complemento ao trabalho terapêutico.
Uma reflexão para levar
Nem toda criança que se afasta do grupo está indiferente. Algumas estão ansiosas. Outras estão frustradas. Outras estão cansadas de tentar. Entender qual é o caso do seu filho é o primeiro passo para ajudá-lo, e os profissionais que acompanham a criança podem ser aliados importantes nesse processo.
Se você quiser conhecer o Mapa das Emoções, o Plano Familiar da AutiGames foi feito para que seu filho possa praticar em casa, no ritmo dele. Acesse e experimente.
Referência: Lindsay-Webb, K., Clayton, P., Simonoff, E., & Hollocks, M. J. Examining the relationship between social motivation and internalizing symptoms in autistic people: a systematic review and meta-analysis. Autism Research, 19, e70185, 2026. DOI: 10.1002/aur.70185