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Seu filho sente emoções!

A dificuldade maior é entender o que os outros estão sentindo

autor
Daniel Spritzer4 de maio
Seu filho sente emoções!

Imagine a seguinte cena: seu filho está brincando no parque e outra criança começa a chorar ao lado dele. Ele olha, mas não reage. Não consola, não se afasta, não pergunta o que aconteceu. Você já viu isso acontecer e provavelmente já se perguntou: será que ele não sente nada?

A resposta curta é: ele sente. A pesquisa científica mostra, cada vez com mais clareza, que crianças e adultos autistas sentem emoções com a mesma intensidade e variedade que qualquer pessoa. O que é diferente é outra coisa, e entender essa diferença muda completamente a forma como você pode ajudar.

Sentir e reconhecer são habilidades diferentes

Um estudo publicado em 2026 na revista científica Autism Research, conduzido por pesquisadores das universidades de Birmingham e Oxford, investigou exatamente essa questão. Os pesquisadores compararam 58 adultos autistas e 59 não autistas em várias tarefas relacionadas a emoções: como eles vivenciam o que sentem, como entendem o significado de diferentes emoções e como reconhecem as emoções nos rostos de outras pessoas.

O resultado principal foi claro: não houve diferença entre os dois grupos na forma como vivenciam emoções. Os participantes autistas sentiam raiva, alegria e tristeza de forma tão consistente e diferenciada quanto os participantes não autistas. Ou seja, o mundo emocional interno de uma pessoa autista não é menos rico nem menos organizado.

Onde apareceu a diferença foi em como essas pessoas reconhecem as emoções dos outros. E essa diferença é importante para qualquer família que quer ajudar seu filho a se conectar melhor com as pessoas ao redor.

Dois caminhos para ler as emoções alheias

O estudo revelou que pessoas autistas e não autistas usam estratégias diferentes para reconhecer o que alguém está sentindo.

Para as pessoas não autistas, o caminho principal é experiencial: elas conseguem reconhecer melhor as emoções dos outros quando conseguem distinguir bem as próprias emoções. É como se o corpo dissesse: “eu sei o que é tristeza porque já senti, então reconheço quando vejo isso no rosto de alguém”.

Para as pessoas autistas, o caminho que funcionou melhor foi diferente: conceitual. Quem tinha um entendimento mais preciso do que cada emoção significa, isto é, quem conseguia definir bem a diferença entre tristeza e frustração, entre medo e ansiedade, entre irritação e raiva, teve mais facilidade para reconhecer emoções em rostos.

Traduzindo para o dia a dia: seu filho pode não “sentir” automaticamente o que o coleguinha está sentindo ao olhar para ele. Mas se ele aprender o que cada emoção significa, como ela se manifesta e em que situações ela aparece, ele pode construir esse reconhecimento por outro caminho. Um caminho que funciona para ele.

O que isso significa para a sua família

Esse achado tem uma implicação prática muito concreta: ensinar seu filho sobre emoções não é perda de tempo. Pelo contrário: para crianças autistas, esse aprendizado conceitual pode ser a chave que abre a porta do reconhecimento emocional.

Isso pode acontecer de várias formas no dia a dia. Nomear emoções em voz alta (“acho que a mamãe está frustrada porque o jantar queimou”), diferenciar emoções parecidas (“isto é irritação, não raiva. Irritação é menor, passa mais rápido”), explicar o contexto que produz cada emoção. Tudo isso é construir um vocabulário emocional que, segundo a pesquisa, tem impacto real na capacidade de ler os outros.

O estudo também traz um alívio importante: a pesquisa controlou para alexitimia, uma condição que dificulta identificar e descrever as próprias emoções e que é mais comum em pessoas autistas. Quando essa variável foi levada em conta, as diferenças no mundo emocional interno desapareceram. Ou seja: quando seu filho parece não saber o que está sentindo, isso pode não ter a ver com o autismo em si, e sim com uma dificuldade específica de colocar emoções em palavras. São coisas diferentes, e ambas podem ser trabalhadas.

Praticar em casa faz diferença

Foi exatamente esse raciocínio, de que ensinar conceitos emocionais de forma explícita e estruturada ajuda crianças autistas a reconhecer emoções, que orientou o desenvolvimento do Que Cara é Essa?, um dos jogos da AutiGames. Nele, a criança pratica a identificação de expressões faciais em um ambiente seguro, no ritmo dela, com repetição e feedback que ajudam a construir esse vocabulário emocional que a pesquisa mostra ser tão relevante.

O jogo foi desenvolvido por psiquiatras da infância e adolescência e por uma psicóloga especializada em autismo, e foi pensado para uso em casa, como complemento à terapia. Não substitui o trabalho do terapeuta, mas amplia o tempo de prática, e, para esse tipo de aprendizado, repetição em contextos variados é fundamental.

Uma reflexão para levar

É importante cuidar da linguagem que usamos: dizer que uma criança autista “não tem empatia” ou “não sente nada” não só é impreciso, mas pode ser prejudicial para a forma como ela se vê. O que a ciência mostra é diferente: ela sente, mas pode precisar de um caminho próprio para entender o que os outros estão sentindo. E esse caminho pode ser ensinado.

Se você quiser conhecer o Que Cara é Essa?, o Plano Familiar da AutiGames foi feito para que seu filho possa praticar em casa, no ritmo dele. Acesse e experimente.

Referência: Keating, C. T., Kraaijkamp, C., & Cook, J. L. The conceptualization, experience, and recognition of emotion in autism: differences in the psychological mechanisms involved in autistic and non-autistic emotion recognition. Autism Research, 19, e70162, 2026. DOI: 10.1002/aur.70162

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